Da dor ao propósito: como uma mãe de Bayeux criou a primeira clínica multidisciplinar para crianças autistas da cidade

Após o diagnóstico do filho em 2019, Carla Pontes transformou a vulnerabilidade em serviço. Hoje, a Afettos atende 150 pacientes e é referência regional no cuidado a pessoas com TEA.

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Há uma frase bíblica que Carla Pontes carrega como se fosse um mapa: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13:7). Ela não sabia, quando o filho Rildinho foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), em 2019, que aquela frase descreveria exatamente o caminho que ela escolheria percorrer. Ao longo da própria caminhada em busca de tratamento e acolhimento para o filho, Carla passou a enxergar a necessidade de criar um espaço mais humano e acessível para outras famílias.


A clínica nasceu pequena e cresceu por necessidade. A Afettos começou com quatro crianças e cinco profissionais em Bayeux, cidade da Região Metropolitana de João Pessoa. Com suporte através da consultoria do Sebrae Paraíba, foi ganhando estrutura. Hoje, são 150 pacientes atendidos e mais de 50 terapeutas em atuação. A clínica se tornou a primeira referência em atendimento multidisciplinar para crianças e adolescentes com TEA no município e uma das principais da região.

“A Afettos nasceu de dores, batalhas e muita fé, para hoje ser instrumento de acolhimento e transformação na vida de tantas famílias”, diz Carla.

Uma família inteira em torno da mesma causa

Carla não caminhou sozinha. O marido, Rildo Pontes, poderia ter ficado à margem, mas escolheu estar no centro. Virou sócio, parceiro de propósito, e diz que, apesar de todos os desafios, se sente honrado. “Nós temos como pilar Deus e família, que é a estrutura de tudo isso.”

Carla Pontes, idealizadora da Afettos e família: a filha Laysa, Rildinho e o marido Rildo Pontes- Foto: Thyfine Kelle

A filha Laysa Oliveira cresceu vendo o irmão Rildinho se desenvolver. Cada conquista pequena, cada novo gesto, cada palavra que demorou mais para chegar. Aquilo não a assustou. A transformou. Decidiu seguir a área da saúde, graduando-se em Fisioterapia e aprofundando sua atuação no desenvolvimento infantil.


“Ver cada conquista, mesmo que com coisas pequenas como olhar e falar, se tornou incrível. É um privilégio participar de cada progresso”, diz Laysa. O que para muitos seria rotina de trabalho, para ela é continuação de uma história que começou dentro de casa.​​​​​​​​​​​​​​​

Um problema que vai além de Bayeux

Os números ajudam a entender a dimensão do que a Afettos enfrenta todos os dias. Em 2025, pela primeira vez desde o início da série histórica do IBGE, o Brasil passou a ter dados oficiais sobre autismo: o Censo Demográfico 2022 revelou que pelo menos 2,4 milhões de brasileiros declaram ter diagnóstico de TEA, representando 1,2% da população. O dado mais expressivo aparece na faixa etária entre 5 e 9 anos: 2,6% das crianças brasileiras nessa idade foram identificadas com TEA, o equivalente a 1 em cada 38 crianças.

Entre 2022 e 2025, o número médio de pessoas com TEA atendidas por médicos cresceu quase 50%, indicando uma busca mais intensa por avaliação e acompanhamento, e ao mesmo tempo, uma pressão crescente sobre a rede assistencial.

Mas ter diagnóstico não significa ter acesso ao tratamento adequado. O Mapa Autismo Brasil, levantamento do Instituto Autismos, revelou que 56,5% das pessoas autistas realizam no máximo duas horas semanais de terapia, bem abaixo do que é preconizado internacionalmente, que são intervenções multidisciplinares em carga elevada. Cerca de 18% não fazem nenhuma hora de terapia por semana.

O peso invisível que recai sobre as mães

Para as famílias, o caminho começa no medo e passa pela escassez de serviços. Mas há outro dado que raramente aparece nas estatísticas: o custo humano sobre quem cuida. O Mapa Autismo Brasil aponta que 92,4% dos cuidadores de pessoas com TEA no país são do sexo feminino. E cerca de 30,5% dessas cuidadoras declararam estar desempregadas ou sem renda própria, resultado direto da dedicação integral ao filho.

Pesquisas mostram que as críticas negativas, a exclusão social e a sobrecarga de responsabilidades favorecem o surgimento de quadros psiquiátricos nessas mães. O diagnóstico do filho pode chegar como alívio ou como sofrimento, mas em ambos os casos, ele transforma para sempre a rotina, a saúde mental e a trajetória profissional dessas mulheres.

Raquel Kelly sabe disso bem. Mãe de Heitor Miguel, de 5 anos, ela chegou à Afettos num dos momentos mais difíceis de sua vida. “Lidar com as crises e o despreparo da sociedade não é fácil. Machuca, pesa. E a clínica surgiu exatamente nesse momento de mais fragilidade”, relata, emocionada.

Maria de Fátima Silva, avó de Bernardo, outro paciente, lembra do que encontrou ao chegar: “Aqui encontramos amor e pessoas que nos abraçaram. E tudo começou a dar certo.”

Um impacto que vai além das crianças

A transformação gerada pela Afettos não fica só nas salas de terapia. Glauciane Soares, auxiliar de serviços gerais e moradora de Bayeux, estava há quatro meses desempregada quando foi contratada pela clínica. “Hoje eu sou muito grata”, diz.

Fisioterapeuta, psicomotricista e Coordenadora da Clínica Afettos Maxwellen Sousa – Foto: Thyfine Kelle

A Fisioterapeuta, psicomotricista e Coordenadora Clínica Maxwellen Sousa também encontrou na Afettos um lugar de sentido profissional. “Sempre tive vontade de trabalhar com algo que pudesse ajudar as pessoas. Quando comecei a atender as crianças e ver o desenvolvimento delas, eu tive a certeza.”

O que a Afettos oferece hoje

Com duas unidades, uma em Bayeux e outra em Santa Rita, a clínica oferece atendimentos em Fisioterapia, Fonoaudiologia, Nutrição, Psicologia, Psicopedagogia, Terapia Ocupacional, além das abordagens ABA e Método Denver, e mantém uma política social: a cada dez crianças atendidas por convênio, uma em situação de vulnerabilidade recebe atendimento gratuito. Um gesto pequeno diante da demanda, mas que, para quem é beneficiado, significa a diferença entre ter acesso ou ficar de fora, como acontece com a maioria das famílias brasileiras que convivem com o autismo.

“O autismo não é uma doença. Ele adoece aqueles que estão perto pela falta de assistência. Meu desejo é que as famílias sejam mais acolhidas e as crianças vistas como seres que contribuem com a sociedade”, conclui Carla Pontes.

Clínica Afettos – Foto: Thyfine Kelle
Clínica Afettos – Foto: Thyfine Kelle
Clínica Afettos – Foto: Thyfine Kelle

Reportagem: Suéllen Santos

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